Volta, o trabalho não remunerado 2
Alguém que estimo muito disse-me:
"Este é um sistema que tem décadas e funciona muito bem no centro da Europa e percebo a frustração de quem como eu, recicla tudo e mais um par de botas. Mas somos a minoria. A maioria de nós não recicla e nem quer reciclar. Por isso, sistemas como este têm de existir"
Estou de acordo, é uma forma de fazer com que mais consumidores não enviem latas e garrafas de plástico para o lixo comum, que vão parar em aterros e em muitos países despejados ao mar. Mas isso não é suficiente. É preciso fazer mais.
Em minha opinião, o objetivo, simulado, foi para as empresas de recolha de resíduos pouparem na contratação de trabalhadores para fazerem a triagem dos residuos.
Esta economia de escala já tinha acontecido em 1985 com a entrada dos multibancos, que levaram mais tarde ao despedimento de muitos funcionários bancários. Não imediatamente mas ao longo dos anos, e mais ainda com o evento do netbanking. Nem por isso os custos bancarios para o depositante desapareceram ou mesmo diminuíram.
As gasolineiras foram dispensando trabalhadores que serviam o combustível aos automobilistas, sendo agora o consumidor que faz o seu trabalho. Em Espanha, pelo menos junto às fronteiras, muitas gasolineiras ainda mantêm trabalhadores a controlar o abastecimento. Talvez com receio que o automobilista não o saiba fazer. Isso teve impacto na descida do preço dos combustíveis?
Recentemente o mesmo aconteceu com as caixas de Self Service dos supermercados que acabam por dispensar funcionários ou não contratar mais.
Para a rede Lidl foi o melhor que podiam ter feito, pois usam os trabalhadores para todo o serviço, desde a limpeza do chão até á caixa. Onde não existe caixa self service, criam-se filas enormes nas caixas manuais, por falta de funcionários, ou porque estão a limpar o chão ou fazer reposições.
Também nos grandes centros comerciais, na zona da restauração, poucos são os trabalhadores que fazem a triagem do lixo, porque a recolha dos tabuleiros é feita pelo consumidor, como se isso tivesse feito reduzir o preço das refeições.
Tudo isto somado, não deixa de ser um atentado à classe trabalhadora, sendo ao mesmo tempo um aumento dos lucros das grandes empresas de distribuição, das gasolineiras e dos bancos, ao qual se juntam agora as empresas de recolha de resíduos com o argumento de que “é bom para o ambiente”. Na verdade poupam assim milhões de euros com trabalhadores. E onde gastam esse dinheiro poupado? No ambiente?
Claro que o Volta é bom para o ambiente, mas já é quando se reciclam as garrafas e latas nos ecopontos, que ficam a abarrotar porque as empresas não os recolhem. Como não há agora funcionários suficientes para fazer a triagem nas empresas de recolha de resíduos, somos nós os consumidores, mais uma vez, que nos chegamos à frente e fazemos nós a triagem, escolhendo as latas e as garrafas que têm o símbolo Volta. O restante plástico e latas de alimentos processados continua a ir para o mesmo contentor. E qual é o seu destino?
O facto de estarem a “dar” 10 cêntimos por cada garrafa ou lata na verdade estão a devolver-nos o dinheiro que pagamos a mais antecipadamente, quando compramos o produto. Gostam muito de nos atirar areia para os olhos argumentando com “é bom para o ambiente”.
Veja-se o imposto sobre os produtos petrolíferos (ISP), que devia ser usado maioritariamente em ações na proteção do ambiente. Penaliza os combustíveis com base no seu potencial de aquecimento global e nas toneladas de dióxido de carbono que emitem para a atmosfera.
Mas na verdade a esmagadora maioria da receita do ISP entra para os cofres gerais do Estado para pagar despesas públicas globais (saúde, educação, etc.), e não é obrigatoriamente canalizada para projetos de conservação ambiental ou reflorestação.
Além disso sofre de dupla tributação. O ambiente também é afetado indiretamente pela forma como o imposto é cobrado, uma vez que o IVA incide sobre o valor do ISP. Ou seja, o consumidor paga imposto (IVA) sobre outro imposto (ISP + Taxa de Carbono).
Enfim, resume-se tudo a mais receita, menos ambiente.
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