Volta, o trabalho não remunerado
Nota: Não sou o autor deste texto mas sim alguém que se identifica como JF, mas achei-o tão atual que não resisti a divulgá-lo aqui, na esperança que chegue a mais pessoas que, tal como eu, estão contra esta manobra da indústria com objetivos puramente lucrativos e não ambientais como se pretende fazer crer. Um agradecimento ao autor, seja lá quem for,
"O Volta não é consciência ambiental. É um trabalho não remunerado disfarçado de virtude cívica. Vendem-no como progresso, como sustentabilidade, como o velho cliché "todos temos de fazer a nossa parte".
Na prática, o esquema é simples: delegaram a recolha e a pré-triagem do
lixo ao cidadão sem qualquer custo, e convenceram-no de que está a ser
recompensado por isso.
Sejamos honestos sobre o que está em causa: as garrafas de plástico e as latas
são os resíduos mais valiosos em toda a cadeia de reciclagem. Em vez da
indústria aperfeiçoar a sua própria logística de recolha, transferiu para o
cidadão a primeira etapa desse trabalho. É o consumidor que agora armazena as
garrafas em casa, as transporta e opera a máquina de triagem, entregando a
matéria-prima separada, pronta a ser faturada à indústria. Tudo isto para
recuperar dez cêntimos que já eram dele desde o início. Porque é isso que
ninguém diz em voz alta: não é uma recompensa, é uma garantia hipotecária.
O consumidor paga primeiro, emprestando esse dinheiro ao sistema sem juros,
e depois precisa de trabalhar — estar na fila, deslocar-se, operar a máquina —
para recuperar o que já lhe pertencia. E aqueles que não têm tempo para essa
fila, que não têm uma máquina Back Near to Home nem os meios para lá chegar,
simplesmente perdem esse dinheiro.
Não é uma opção neutra: é uma penalização económica silenciosa para aqueles
que já têm menos tempo e menos recursos. E há um sintoma ainda mais revelador
deste esquema: a febre. Já se vêem pessoas a remexer em contentores do lixo,
convencidas de que encontraram uma fonte de rendimento. É a prova mais clara de
que o sistema foi vendido com sucesso — não como um dever cívico, mas como uma
oportunidade de negócio ao alcance de qualquer pessoa.
Mas fazer as contas a sério revela o óbvio: roubar garrafas no caixote do
lixo, a dez cêntimos cada, para "ganhar dinheiro", é o tipo de
matemática que só faz sentido para quem não parou para calcular o valor do seu
tempo. Não é empreendedorismo. É a prova de como uma ideia habilmente revestida
de retórica ecológica pode fazer com que aquilo que, isolado do discurso, seria
imediatamente reconhecido como trabalho precário e mal remunerado, pareça
lucrativo.
Enquanto isso, o custo de vida continua a subir. Os preços da água
aumentam, os preços dos produtos aumentam constantemente, e ninguém pára para
perguntar: se o processo se tornou tão eficiente e circular, porque é que essas
poupanças nunca chegam aos bolsos de quem realiza trabalho manual?
A resposta é simples e incómoda: nunca se tratou do ambiente. Tratava-se de
cortar custos operacionais e apresentar esses cortes como um envolvimento
cívico.
O mecanismo segue a mesma cartilha das caixas automáticas de supermercado:
a função é transferida para o cliente sob o disfarce de
"modernidade", e a margem de lucro é protegida sem qualquer desconto
real para os consumidores.
No passado, havia pessoas que lidavam com plástico. Esse trabalho não desapareceu,
mas agora também é seu. O sistema apropria-se do vocabulário ecológico —
economia circular, pegada ecológica, responsabilidade — para erguer uma fachada
ética inabalável, onde ninguém se atreve a questionar o que está por detrás da
doutrina. E por detrás de tudo isto, o equilíbrio é claro: exige-se mais
trabalho não remunerado aos cidadãos comuns, impõem-se penalizações a quem não
tem tempo, um exército de pessoas vasculha o lixo em busca de moedas de 10
cêntimos, e ninguém sabe o que vai acontecer a seguir.
Não é grande coisa. É uma publicidade enganosa para os nerds."
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