Como se atravessa uma passadeira de peões?
Quando era miúdo, aprendi a atravessar rua levado pela mão de um dos meus pais.
Aprendi nunca atravessar a rua sem antes olhar para ambos lados a ver se não vinha lá um carro a acelerar a 50 km por hora. Sim, porque nos anos 60 do século passado poucos carros andavam na cidade a mais que essa velocidade, que era a máxima permitida então.
Aprendi também que uma pancada de um carro
parte pernas, e não são as pernas que partem os carros.
Aprendi mais ainda, que os carros não sofriam
se nos dessem uma pancada nas pernas, mesmo que estivéssemos em cima de uma passadeira.
Duas gerações depois, não só as pessoas da
minha geração esqueceram de como ensinar os filhos a atravessar uma rua, como
eles próprios se esqueceram de como se atravessa, estejam ou não numa
passadeira. O resultado é que os jovens de hoje não sabem atravessar uma passadeira.
As passadeiras não são um prolongamento da calçada.
A calçada é para os peões, a rua para os carros. Por isso ao atravessar a rua o
peão só tem prioridade se já tiver iniciado o atravessamento.
Os dados oficiais da Autoridade Nacional de
Segurança Rodoviária (ANSR) e da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) revelam
que a grande maioria dos
atropelamentos (cerca de 80%)
acontece dentro das localidades (zonas urbanas), onde o desrespeito pela
prioridade do peão e a distração, tanto de condutores como de peões, são as
causas principais.
Os números
globais de vítimas mortais por atropelamento têm sofrido flutuações, mas
mantêm-se em níveis elevados comparativamente à média da União Europeia.
Em 2023 as
vítimas mortais foram cerca de 120, representando cerca de 20% do total de
mortes nas estradas.
Em 2024 foram 107
os atropelamentos, responsáveis por 17,3% das mortes totais (618 óbitos).
No primeiro
trimestre de 2025 os dados preliminares indicam uma descida de 7% nos
atropelamentos face a 2024.
Atravessar a
rua parece algo instintivo, mas o Código
da Estrada (CE) em Portugal dedica vários artigos a este ato para
garantir que ninguém saia prejudicado. Não se trata apenas de "pôr o pé e
avançar"; há regras de etiqueta rodoviária e segurança que, se ignoradas,
podem até resultar em coimas para o peão.
Onde atravessar? (A regra dos 50 metros) O peão não pode atravessar em qualquer lado se houver
uma passadeira por perto. Se existir uma passagem sinalizada (passadeira ou
passagem superior/subterrânea) a menos de 50 metros, é obrigatório usá-la. Exceção: Se não houver passadeiras nesse raio de 50 metros, pode
atravessar perpendicularmente ao eixo da faixa de rodagem, desde que não
perturbe o trânsito.
Como atravessar com segurança.
O Código é
claro (Artigo 101.º): o peão não
tem "imunidade diplomática" mal toca na zebra. Antes de iniciar a travessia, o peão deve
certificar-se de que a distância e a
velocidade dos veículos permitem fazê-lo em segurança.
Uma vez
iniciada, a travessia deve ser feita o mais rapidamente possível. Nada de ficar
a ver tik toks no Telemóvel ou a conversar no meio da passadeira como se
estivesse num jardim à beira mar. Deve atravessar em linha reta
(perpendicularmente) e não em diagonal.
A questão da prioridade (Artigo 103.º). O condutor é obrigado a deixar passar os peões que já iniciaram a travessia. Legalmente,
o condutor deve moderar a velocidade ou parar perante um peão que tenha a intenção
clara de atravessar. Mas também não é preciso parar porque alguém está a sair
do prédio e poderá querer atravessar. É um exagero? Sim, é verdade, mas já vi
coisa parecida, alguém que se agachou para abotoar o atacador e o carro à
minha frente parou à espera para saber se havia intenção ou não de atravessar (o que
não aconteceu)
O peão também
tem o dever de não se atirar para a frente dos carros de forma repentina, tipo,
“isto é o meu território”.
Por fim, se estiver a andar de bicicleta ou trotineta elétrica, não é considerado peão. Para ter prioridade numa passadeira de peões, tem de sair do veículo e levá-lo à mão.
Se atravessar
a pedalar/montado, perde a prioridade de peão e, em caso de acidente, a
responsabilidade pode recair sobre ele.
E pasme-se, os
peões também podem ser multados. Atravessar fora da passadeira (quando existe
uma a menos de 50m) ou desrespeitar os sinais luminosos (passar no vermelho)
pode resultar em coimas que variam entre 10 € e 50 €.
Mesmo que a
lei lhe dê prioridade, as leis da física são mais implacáveis. Certifique-se
sempre de que foi visto pelo condutor antes de avançar. Um contacto visual
rápido vale mais do que qualquer parágrafo do Código da Estrada. E uma perna
partida é uma chatice.
Com auriculares enterrados nas orelhas e a
olhar para o telemóvel, não querem saber se o carro para ou não. Só quando
sentirem o ferro a bater nas pernas é que dizem, Ai que doi.
Por curiosidade: passei recentemente 5 dias em Roma, Itália. Se acham que os portugueses não respeitam o peão, passem por lá. Parece um jogo de "quem acerta mais no peão".
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